Promessa
Era uma torcedora supersticiosa.
Seu clube, um dos grandes de uma das maiores capitais do país, munia-lhe de títulos e vitórias. Triunfos que, sem "se" e se "mas", ela transformava em amuletos — garantias para o futuro.
De tantos paramentos, seus pré-jogos eram pré-listas:
— A bandana de 74... o pingentinho de 75... os brincos de 79... o terço de 82 na mão esquerda... o radinho de 85... o namorado de 89...
— Amor, você precisa mesmo trazer esse cara pra cá? Seu marido sou eu.
— Ai, meu bem, é um jogo importante. O Renatinho me deu sorte, só isso.
— Pô, mas você sozinha em casa com esse cara...
— Ah, que culpa eu tenho de você ter ido na sua mãe bem na final do Nacional de 96? Aliás, meu filho, já está na hora, né?
— Sei, sei, sei, inferno. Já vou indo.
Feitas essas conferências, e após resolver questões sobre a calcinha de 98 ou 2003 — na dúvida, usava as duas — e dispensar o sutiã — pois, na euforia pelo Continental de 2011, fizera um top less desde o estádio para toda a América, via satélite —, ela estava pronta.
Durante o jogo, policiava-se:
sentar, só no meio do sofá da sala, entre a segunda e terceira bandas — o gol
do Estadual de 2015 saíra com ela ali; de pé, só à direita da televisão (aquele
pombo sem asa no clássico de 2016); em pênaltis, ajoelhava de uma vez.
Todos esses que tais, porém, ao impediram que, naquele ano, seu clube sofresse um 6x0 humilhante no primeiro jogo da final de um campeonato Interestadual.
Sua primeira reação foi maldizer suas superstições — que aquilo tudo era bobagem, uma perda de tempo, o diabo. Depois, mais calma, mas ainda apreensiva pelo resultado, voltou à sua razão:
— Tem alguma coisa que eu não fiz. É só eu fazer, que a gente leva mais essa taça.
Teria três dias até a segunda e decisiva partida para revisar sua lista de superstições. Pediu uma licença do emprego e dedicou-se de corpo e alma à tarefa:
— Certo, eu lembro que transei na semana do nosso Interestadual de 87. Ai, mas eu ainda namorava o Renatinho. Será que com o meu marido faz o mesmo efeito?
Na dúvida, acabaria transando com os dois. Um de cada vez — pois perderá aquele título quase ganho de 2014 após um ménage.
Recuperou seu primeiro bandeirão e as chinelinhas da sorte, ouviu aquela canção do Roberto, comeu aquele sanduba de mortadela com chantily do pós-título de 2018 (em sua defesa, estava bêbada — afinal, o campeonato de 2017 tinha saído com ela de porre), enfim, fez tudo, tudo o que podia.
Mesmo assim, não estava segura. A humilhação do primeiro jogo, o peso de ter que reverter um 6x0, esmagava-lhe a moral. Pela primeira vez, admitiu-se — como uma voz baixa e interiorizada, mas, admitiu-se — que seus esforços não seriam suficientes.
Seu marido, vendo o desconsolo da pequena — e já refeito do fato de ela ter transado com Renatinho —, animou-a como pôde:
— Tenha fé, minha filha.
Fé. A palavra lhe calou fundo. E, na véspera do jogo decisivo, sem poder dormir, ela, ajoelhada — caindo de uma vez, tal qual num pênalti —, rendeu-se ao Plano Superior:
— Meu Deus, olha, se a gente levar esse título, eu prometo... eu prometo... prometo o quê?
A princípio, pensou em coisas bobas, amenidades. Depois, lembrou dos 6x0 e, qual um Garrincha infiltrado, foi para o sacrifício:
— Eu prometo pro Senhor, meu Deus, que se a gente levar esse Interestadual, eu largo todas as minhas superstições depois do jogo.
Não era pouca coisa. Mas ela estava decidida.
No dia seguinte, o dia do grande jogo, alardeou sua promessa aos quatro cantos. No pré-jogo, refez seus rituais supersticiosos na confiança de que seria a última vez — Renatinho, que havia nutrido tantas esperanças, coitado, também estava lá.
O jogo foi um milagre. De toque em toque, os gols saíam — um, dois, três, sete. Sete. Um 7x0 que sabia à divindade, que desafiava a lógica, mas que estava lá, impresso em neon no placar do estádio. O time dela, mais uma vez, fora campeão.
Meses depois, mais uma final — um torneio nacional. Paramentada qual um carro alegórico, ela esperava ansiosa, entre a segunda e terceira bandas do sofá da sala, com bandana, meia-calça, radinho, pingentinho, Renatinho, tudo. Seu marido, vendo a cena, surpreendeu-se:
— Que é isso, amor? E aquela promessa de largar as superstições?
— Sim, eu já refiz ontem à noite. Promessa boa, né? Deu resultado. A partir de agora, eu faço essa promessa em todas as finais. Não dá pra arriscar.
A promessa se tornara sua mais nova superstição. Resignado — e notando um sorriso satisfeito em Renatinho — o marido apanhou as chaves e rumou para a casa da mãe. Só voltou à noite, já com ela de porre e comendo seu sanduba de mortadela com chantily, feliz da vida pelo mais novo título de seu time.
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