Coreia do Norte e bem-estar mental

1.

Diz-se que a Coreia do Norte é um Estado autoritário, ditatorial, repressor — o diabo. E, pelo que consta, pode ser que exista certa verdade nisso tudo. Mas, na contra-mão dos contra-revoluconários, permitam-me dizer o seguinte: a boa República Democrática (assim ela se chama) é, antes de tudo, um Estado de bem-estar mental.

Senão, vejamos.

2.

Já está comprovado, por A+B, que guardar raiva — remoer, reprimir os instintos, mesmo os mais baixos — faz um mal danado.

Quantas vezes, por exemplo, você não pensou ou mesmo disse: “Não dá, vou explodir” — mas, por pura etiqueta social, puro peso prévio de consciência, não explodiu? E tome somatização, descompenso, desacorçoamento e problemas de toda a ordem no seu organismo.

Na Coreia do Norte é diferente. Dia desses, com efeito, explodiram, lá na capital Pyongyang, um escritório de relações bilaterais com a coirmã do Sul. (E, segundo testemunhas, ainda gritaram durante o ato algo que, em livre tradução, seria “Enfia esse escritório no Seul” — um desafogo, enfim, de alma.)

Percebeu? Mente leve: lá, quando querem explodir, explodem. Diz-se e se faz.

3.

Outro exemplo? Simples. Puxe pela memória: alguma vez, num arroubo de raiva, você já ficou a ponto de matar alguém? “Ah, mas eu vou matar ‘Fulano’ hoje”, você pensou ou disse. Claro que sim. Matou? Claro que não. Por quê? Porque é errado, dá cana, está n’Os Dez Mandamentos e outros bichos. E a coisa fazendo mal a você, embrulhando seu estômago, pesando na sua cabeça etc.

Estivesse você na Coreia do Norte — e, digamos tudo: fosse você, também, filiado ao Partido —, não precisaria se submeter aos perigos de remoer essa raiva. Quer matar? Mate. Escolha, até: pode ser um inimigo; pode ser um aliado (da sua patente para baixo, evidentemente, e, de preferência, sem relações diretas com o Comitê Central); e mais: pode ser até a própria população.

4.

“A própria população?”, você se horroriza. E, na sua indignação reacionária, complementa: “Ora, assim já é demais, é demais.”

Absolutamente.

Segundo relatos, os mortos da Coreia do Norte passam muito melhor do que os vivos. Basta pensar que os defuntos vêem nascer, desde a raiz, a grama que alguns de seus menos afortunados, porque vivos, compatriotas já tiveram (ou ainda têm) que comer em substituição aos alimentos ditos convencionais — geralmente ligados às cadeias de consumo predatório do Ocidente.

O assassínio, então, é a maior fonte de bem-estar social do país. Além de — para voltarmos ao tema — assegurar o direito, quase a reivindicação popular, por iniciativas de bem-estar mental. Ou você imagina que os norte-coreanos, em seus (permitidos) momentos de raiva, nunca pensaram: “Meu Deus, mas eu quero morrer com isso”? Assim se faz a vontade do povo. E mesmo o líder do país, Kim Jong-un, parece melhor agora, após, segundo “N” agências de notícias internacionais, ter morrido por uns dias.

5.

Eis tudo: a Coreia do Norte é terapêutica.

E aprendamos com ela de uma vez: nosso bem-estar mental não vale uma relação bilateral ou mesmo uma vida — sobretudo neste mundo tão densa e tensamente povoado.

Exploda. Mate. Morra. Mas, sobretudo, não se cobre tanto.

Namastê.

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